{"id":2878,"date":"2024-02-12T14:42:53","date_gmt":"2024-02-12T18:42:53","guid":{"rendered":"https:\/\/fontetrabalhista.com.br\/?p=2878"},"modified":"2024-07-17T16:28:12","modified_gmt":"2024-07-17T19:28:12","slug":"a-concessao-do-auxilio-maternidade-as-mulheres-indigenas-menores-de-16-anos-como-instrumento-de-efetivacao-do-principio-da-autodeterminacao-dos-povos-tradicionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/2024\/02\/12\/a-concessao-do-auxilio-maternidade-as-mulheres-indigenas-menores-de-16-anos-como-instrumento-de-efetivacao-do-principio-da-autodeterminacao-dos-povos-tradicionais\/","title":{"rendered":"A Concess\u00e3o do Aux\u00edlio Maternidade \u00e0s Mulheres Ind\u00edgenas Menores de 16 anos como instrumento de efetiva\u00e7\u00e3o do Princ\u00edpio da Autodetermina\u00e7\u00e3o dos Povos Tradicionais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>The Concession of Maternity Assistance to Indigenous Women under 16 years as an instrument to implement the Principle of Self-Determination of Traditional People<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Stella Litaiff Isper Abrahim C\u00e2ndido<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Resumo:<\/strong> A Constitui\u00e7\u00e3o Federal Brasileira consagra, atrav\u00e9s do respeito \u00e0 diversidade cultural, o reconhecimento aos povos ind\u00edgenas de suas tradi\u00e7\u00f5es e costumes, especialmente no que toca \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o dos direitos sociais aos povos tradicionais, que sempre devem balizar-se, na pr\u00e1tica, no maior interesse desses povos, adequando-se ao seu modo de viver. \u00c9 neste contexto que o presente artigo analisa a jurisprud\u00eancia consolidada no \u00e2mbito do Tribunal Federal Regional da 1\u00aa Regi\u00e3o quanto \u00e0 concess\u00e3o do aux\u00edlio maternidade \u00e0s m\u00e3es ind\u00edgenas menores de 16 anos, tutelando o trabalho desenvolvido por elas no \u00e2mbito da comunidade em que vivem como elemento integrante de sua forma\u00e7\u00e3o cultural, a despeito da norma proibitiva do trabalho infantil contida no art. 7\u00ba, inc. XXXIII, da CF\/88.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Palavras-chaves: Aux\u00edlio maternidade, trabalho infantil, autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, multiculturalismo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Abstract: <\/strong>The Brazilian Federal Constitution enshrines, through respect for cultural diversity, the recognition of indigenous people of their traditions and customs, especially with regard to the application of social rights to those people, which must always be guided, in practice, in the greatest interest of these peoples, adapting to their particular way of life. It is in this context that this article analyzes the consolidated jurisprudence of the Federal Regional Court of the 1st Region, about the concession of maternity assistance to indigenous mothers under the age of 16, overseeing the work developed by them as an element part of their cultural background, despite the prohibition of child labor contained in art. 7, inc. XXXIII, of CF\/88.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Keywords: Maternity assistance; child labor; self-determination of indigenous people, multiculturalism<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Constitui\u00e7\u00e3o Federal Brasileira, fundada na prote\u00e7\u00e3o aos direitos humanos, inova sobremaneira no ordenamento jur\u00eddico ao consagrar, em seu art. 231, o reconhecimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena de sua organiza\u00e7\u00e3o social, l\u00ednguas, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m dos direitos origin\u00e1rios sobre as terras tradicionalmente ocupadas. Ainda, garantindo o pleno reconhecimento do ind\u00edgena como titular de direitos, a Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT imp\u00f5e aos Estados signat\u00e1rios o dever de implementar um verdadeiro sistema interno de prote\u00e7\u00e3o aos direitos desses povos, promovendo a efetividade dos direitos sociais e econ\u00f4micos, sempre em observ\u00e2ncia \u00e0 identidade cultural, costumes e tradi\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena (art. 2\u00ba da Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT)<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Em que pese recentemente o Estado Brasileiro ter denunciado a Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT, o princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas e da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade cultural s\u00e3o igualmente consagrados, de forma expressa, na Declara\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os Direitos dos Povos Ind\u00edgenas, de 2008, constituindo este \u00faltimo documento verdadeira fonte interpretativa e orientadora da aplica\u00e7\u00e3o, pelo Estado Brasileiro, dos direitos fundamentais a este grupo \u00e9tnico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levando em considera\u00e7\u00e3o a vasta normatividade acerca da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos tradicionais, bem como o respeito \u00e0s suas cren\u00e7as e costumes, o presente artigo tem por objetivo analisar, em um primeiro momento, o trabalho infantil no \u00e2mbito das comunidades ind\u00edgenas, como desdobramento cultural, contextualizando-o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o conferida ao art. 7\u00ba, inc. XXXIII da CF\/88, que pro\u00edbe qualquer esp\u00e9cie de trabalho aos menores de 16 anos, salvo na condi\u00e7\u00e3o de aprendiz, a partir dos 14<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perpassadas as considera\u00e7\u00f5es acerca do trabalho desenvolvido por crian\u00e7as e adolescentes no seio das comunidades em que vivem, como elemento integrante de seu processo cultural, o presente artigo abordar\u00e1, como cerne do estudo, a an\u00e1lise de decis\u00f5es judiciais que, neste sentido, t\u00eam deferido a concess\u00e3o do aux\u00edlio maternidade \u00e0s m\u00e3es ind\u00edgenas menores de 16 anos na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, a despeito da norma constitucional proibitiva de tal esp\u00e9cie de labor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por derradeiro, partindo-se dos argumentos adotados nas decis\u00f5es dos tribunais acerca da mat\u00e9ria, buscar-se-\u00e1 demonstrar a necessidade de uma interpreta\u00e7\u00e3o \u201cculturalizada\u201d dos dispositivos constitucionais, quando de sua aplica\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas, de modo a preservar a autodetermina\u00e7\u00e3o desses povos e a perpetua\u00e7\u00e3o de seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong><\/strong><strong>O princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas no Estado Social de Direito<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo ensina o professor Luiz Fernando Villares, n\u00e3o se pode dizer que o direito \u00e9 atemporal ou universal, uma vez que resulta da condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cultural de uma determinada sociedade, sendo ent\u00e3o constru\u00eddo de forma gradual, de acordo com os valores da sociedade naquele momento da cronologia, tendo como fonte direta os costumes, cren\u00e7as populares e a consci\u00eancia comum daquele povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste sentido, a Constitui\u00e7\u00e3o Federal Brasileira de 1988, fundada no contexto hist\u00f3rico e social da \u00e9poca de sua promulga\u00e7\u00e3o e, inspirada pelos tratados internacionais em mat\u00e9ria de direitos humanos, inaugura uma ordem jur\u00eddica voltada principalmente para a tutela do indiv\u00edduo, por meio de um Estado Social de Direito, reconhecendo expressamente em seu art. 6\u00ba direitos como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, trabalho, moradia, lazer, seguran\u00e7a, previd\u00eancia social, prote\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia e aos desamparados, como direitos m\u00ednimos do cidad\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Estado Social representa, portanto, a verdadeira busca pela igualdade, atuando na &nbsp;redistribui\u00e7\u00e3o de renda e no amparo aos vulner\u00e1veis, na medida em que busca implementar pol\u00edticas p\u00fablicas e garantir a igualdade de condi\u00e7\u00f5es, materializando o princ\u00edpio da isonomia em sua forma mais pura e n\u00e3o apenas formal. Deste modo, as diferen\u00e7as inerentes a cada indiv\u00edduo n\u00e3o devem servir de amparo \u00e0 negativa de determinados direitos, uma vez que o objetivo do texto constitucional \u00e9 justamente equiparar os indiv\u00edduos em situa\u00e7\u00f5es distintas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com efeito, considerando justamente a necessidade da oferta igualit\u00e1ria dos direitos fundamentais aos grupos de indiv\u00edduos em situa\u00e7\u00f5es distintas, notadamente no que toca \u00e0s quest\u00f5es \u00e9tnico-culturais, respeitando as particularidades e modo de viver de cada povo, nosso constituinte consagrou ainda, de forma expressa, a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade cultural, sen\u00e3o vejamos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Art. 215. O Estado garantir\u00e1 a todos o pleno exerc\u00edcio dos direitos culturais e acesso \u00e0s fontes da cultura nacional, e apoiar\u00e1 e incentivar\u00e1 a valoriza\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>\u00a7 1\u00ba O Estado proteger\u00e1 as manifesta\u00e7\u00f5es das culturas populares, ind\u00edgenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizat\u00f3rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>\u00a7 2\u00ba A lei dispor\u00e1 sobre a fixa\u00e7\u00e3o de datas comemorativas de alta significa\u00e7\u00e3o para os diferentes segmentos \u00e9tnicos nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>\u00a7 3\u00ba A lei estabelecer\u00e1 o Plano Nacional de Cultura, de dura\u00e7\u00e3o plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do Pa\u00eds e \u00e0 integra\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es do poder p\u00fablico que conduzem \u00e0:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>I defesa e valoriza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural brasileiro;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>II produ\u00e7\u00e3o, promo\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de bens culturais<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>III forma\u00e7\u00e3o de pessoal qualificado para a gest\u00e3o da cultura em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>IV democratiza\u00e7\u00e3o do acesso aos bens de cultura;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>V valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade \u00e9tnica e regional.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A referida previs\u00e3o constitucional decorre diretamente da diversidade cultural como caracter\u00edstica marcante do povo brasileiro, fruto de acontecimentos hist\u00f3ricos, como os movimentos migrat\u00f3rios, o processo de coloniza\u00e7\u00e3o, a escravatura, guerras, dentre outros. Esses acontecimentos atuaram na reconfigura\u00e7\u00e3o da sociedade que, atualmente, \u00e9 multifacet\u00e1ria e multicultural, permissiva da livre manifesta\u00e7\u00e3o dos diversos modos de vida. &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda, entendendo o multiculturalismo como um dos elementos caracterizadores da sociedade brasileira, tem-se na carta constitucional n\u00e3o apenas a garantia da igualdade, como tamb\u00e9m o reconhecimento das diferen\u00e7as, na medida em que se possibilita a efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos humanos \u00e0s minorias \u00e9tnicas, a\u00ed inclu\u00eddos os povos ind\u00edgenas, que atualmente somam aproximadamente 900 mil pessoas. Deste n\u00famero, a maior parte reside no estado do Amazonas, que conta com mais de 66 etnias ao longo de seu territ\u00f3rio, com pelo menos 29 dialetos conhecidos, segundo consta do \u00faltimo censo do IBGE, realizado em 2010. Destaca-se neste contexto o munic\u00edpio de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira que, dos 46 mil habitantes, cerca de 29 mil s\u00e3o integrantes de comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00f3pria hist\u00f3ria brasileira revela a import\u00e2ncia da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena para o desenvolvimento do pa\u00eds que, por muitas vezes, foram subjugados em seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es, seja para que tivessem sua for\u00e7a de trabalho explorada economicamente, seja pela constante tentativa de ocidentaliza\u00e7\u00e3o desses povos pelos colonizadores. \u00c9 na contram\u00e3o desta ideia que, refor\u00e7ando a prote\u00e7\u00e3o ao multiculturalismo e ao princ\u00edpio da igualdade, estabeleceu-se de forma expressa em nossa Constitui\u00e7\u00e3o o reconhecimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena de sua organiza\u00e7\u00e3o social, l\u00ednguas, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m dos direitos origin\u00e1rios sobre as terras tradicionalmente ocupadas (art. 231), n\u00e3o podendo a diferen\u00e7a cultural servir, jamais, como justificativa para a nega\u00e7\u00e3o de direitos constitucionalmente assegurados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O respeito \u00e1 diversidade cultural e \u00e0s minorias \u00e9tnicas \u00e9 igualmente tutelado na ordem jur\u00eddica internacional por meio da consagra\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas como a pedra fundamental do direito \u00e0 auto-organiza\u00e7\u00e3o desses povos, segundo seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es, sendo um verdadeiro direito fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito embora o princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos tradicionais tenha como maior expoente normativo a Declara\u00e7\u00e3o de Direitos das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Direito dos Povos Ind\u00edgenas, o ideal da autodetermina\u00e7\u00e3o possui um longo trajeto, emergindo j\u00e1 como princ\u00edpio moral desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. H\u00e1 ainda que defenda que a autodetermina\u00e7\u00e3o \u00e9 assegurada, de forma impl\u00edcita e indireta, na Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT sobre povos ind\u00edgenas e tribais, anterior \u00e0 Declara\u00e7\u00e3o de Direitos das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Direito dos Povos Ind\u00edgenas, de 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste ponto, \u00e9 imperioso contextualizar o conceito de autodetermina\u00e7\u00e3o. Isto porque, sob uma perspectiva ocidentalizada (especialmente EUA, Reino Unido e Fran\u00e7a), a autodetermina\u00e7\u00e3o decorreria de no\u00e7\u00f5es de soberania popular, liberdades individuais e governo representativo, implicando a tradi\u00e7\u00e3o de um \u201crepublicanismo c\u00edvico\u201d, onde a realiza\u00e7\u00e3o da soberania popular se revelava em um governo representativo. Assim, a exist\u00eancia de uma diversidade \u00e9tnica n\u00e3o teria qualquer relev\u00e2ncia significativa no \u00e2mbito do debate pol\u00edtico, uma vez que o Estado visava garantir a representatividade e liberdade de todos os seus habitantes, sem privilegiar uma ou outra minoria ou mesmo considerar as particularidades de cada uma quando da implementa\u00e7\u00e3o material de tais direitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 certo que at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, o elemento cultural era totalmente irrelevante para o campo pol\u00edtico, ganhando notoriedade e normatividade apenas na segunda metade do s\u00e9culo XX, por ocasi\u00e3o do surgimento da ONU (1945) e dos direitos de 3\u00aa dimens\u00e3o, isto \u00e9, direitos titularizados por uma coletividade, tal qual a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade cultural e respeito aos costumes e tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Especificamente em rela\u00e7\u00e3o a este \u00faltimo grupo, o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas como direito fundamental somente ganhou espa\u00e7o, de forma expressa, na Declara\u00e7\u00e3o de Direitos das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Direito dos Povos Ind\u00edgenas que, longe de autorizar ou fomentar qualquer a\u00e7\u00e3o direcionada a desmembrar ou reduzir, total ou parcialmente, a integridade territorial ou a unidade pol\u00edtica dos Estados, protege as pr\u00e1ticas culturais ind\u00edgenas, determina a ado\u00e7\u00e3o de medidas anti-discriminat\u00f3rias pelos Estados, bem como reconhece o direito aos territ\u00f3rios tradicionalmente ocupados por esses povos.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, aplicando-se na \u00edntegra ao nosso ordenamento jur\u00eddico p\u00e1trio, tem-se como dever do Estado a observ\u00e2ncia da autonomia dos povos ind\u00edgenas para preservar seu modo de vida de acordo com suas tradi\u00e7\u00f5es, o que implica, na pr\u00e1tica, a necessidade de uma verdadeira \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o culturalizada\u201d dos artigos constitucionais, quando de sua aplica\u00e7\u00e3o a tal minoria \u00e9tnica, pr\u00e1tica esta que j\u00e1 vem sendo adotada pelos tribunais nacionais, a exemplo da concess\u00e3o do sal\u00e1rio maternidade \u00e0s m\u00e3es ind\u00edgenas menores de 16 anos, abordado de forma detalhada na terceira parte do presente artigo, a despeito da norma constitucional que pro\u00edbe qualquer esp\u00e9cie de trabalho aos menores de 16 anos, excepcionando-se o trabalho de aprendizagem a partir dos 14.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong><\/strong><strong>O trabalho infantil ind\u00edgena como elemento de forma\u00e7\u00e3o cultural e a relativiza\u00e7\u00e3o do art. 7\u00ba, inc. XXXIII, da CF\/88.<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os costumes e tradi\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas, previstos expressamente na Magna Carta de 1988, constituem verdadeiros marcadores simb\u00f3licos da fronteira \u00e9tnico-cultural entre os povos tradicionais e a sociedade dita ocidentalizada, sendo que a inobserv\u00e2ncia a tal fronteira, na pr\u00e1tica social e pol\u00edtica, obstaculiza a implementa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a normativa do texto constitucional, impossibilitando o exerc\u00edcio pleno do direito \u00e0 cidadania pelos povos ind\u00edgenas, no que toca ao exerc\u00edcio do direito \u00e0 diferen\u00e7a como corol\u00e1rio de sua identidade cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim o \u00e9 quando da materializa\u00e7\u00e3o dos direitos sociais voltados a esta parcela da popula\u00e7\u00e3o, tal como ocorre com o direito \u00e0 sa\u00fade e o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o que, para serem implementados, necessitam observar as particularidades e costumes de cada etnia, atendendo \u00e0s suas cren\u00e7as bem como ministrando as aulas no dialeto local daquela comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste lume, no que toca ao trabalho infantil, a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do mesmo deve ser repensada quando nos deparamos com o trabalho desenvolvido por crian\u00e7as e adolescentes ind\u00edgenas. Sob uma perspectiva hist\u00f3rica, a luta pela erradica\u00e7\u00e3o do trabalho infantil sempre foi uma constante em nosso ordenamento jur\u00eddico, na medida em que a explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra infantil, especialmente em condi\u00e7\u00f5es inadequadas, coloca a crian\u00e7a e o adolescente em situa\u00e7\u00f5es de verdadeira vulnerabilidade, violando a condi\u00e7\u00e3o desses indiv\u00edduos de pessoas em desenvolvimento e marginalizando-as de direitos b\u00e1sicos da crian\u00e7a, como o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, lazer e conv\u00edvio familiar. Com o intuito ent\u00e3o de refor\u00e7ar a rede de prote\u00e7\u00e3o criada pelo Estado em torno da crian\u00e7a e do adolescente que, pela carta de 1988 possuem m\u00e1xima prioridade de tratamento, o constituinte estabeleceu a proibi\u00e7\u00e3o do trabalho noturno ou em condi\u00e7\u00f5es penosas, perigosas ou insalubres para os menores de 18 anos e de qualquer trabalho para os menores de 16, salvo na condi\u00e7\u00e3o de aprendiz, a partir dos 14 anos, de aplica\u00e7\u00e3o indistinta para todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ocorre que, tradicionalmente, a cultura indigenista estabelece o trabalho para os jovens membros do grupo n\u00e3o com o vi\u00e9s explorat\u00f3rio ou predat\u00f3rio, mas como forma de participa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e adolescentes na vida da comunidade, bem como parte do processo cultural de aprendizagem daquele grupo.&nbsp; Assim, \u00e9 comum os meninos, desde muito cedo, ca\u00e7arem animais, domesticarem p\u00e1ssaros e outras esp\u00e9cies, acompanhando os pais na ca\u00e7a e na pesca, bem como auxiliando na constru\u00e7\u00e3o de canoas, principal meio de transporte dos povos tradicionais no estado do Amazonas. As meninas por sua vez t\u00eam por h\u00e1bito acompanharem suas m\u00e3es nos afazeres dom\u00e9sticos, auxiliando nas planta\u00e7\u00f5es, colheitas e cozimento e preparo dos alimentos a serem ofertados ao restante do grupo. Neste \u00ednterim, transcrevem-se os ensinamentos do pesquisador Julio Cezar Menatti:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meninos e meninas costumam imitar os adultos de seu sexo, nos brinquedos, preparando-se assim para o futuro. As meninas brincam com as bonecas, os meninos flecham calangos e passarinhos com a ajuda de pequenos arcos. Mas nem tudo que as crian\u00e7as fazem \u00e9 brinquedo: as meninas ajudam a tomar conta dos irm\u00e3os menores, por exemplo. H\u00e1, pois, tarefas que s\u00e3o atribu\u00eddas a pessoas de determinadas idades. Por exemplo, entre os \u00edndios Krah\u00f3, cabe aos meninos e aos velhos carregar as armas e a carne para a aldeia, enquanto os ca\u00e7adores entram na aldeia disputando uma corrida de toras. Entre os mesmos \u00edndios cabe \u00e0s crian\u00e7as e aos velhos espantar os p\u00e1ssaros das ro\u00e7as no per\u00edodo que precede \u00e0 colheita. Entre os antigos Tupinamb\u00e1 eram as mo\u00e7as que mastigavam as ra\u00edzes com que se faziam bebidas (MELATTI, 1993, P. 63-64).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Observa-se, portanto, que a cultura ind\u00edgena prop\u00f5e uma participa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes nas atividades quotidianos, com objetivos de car\u00e1ter pedag\u00f3gico e intera\u00e7\u00e3o social conforme descreve Christian Te\u00f3filo da Silva:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A menininha e seu tran\u00e7ado, \u00e0 sombra, na ro\u00e7a. Sua min\u00fas\u00adcula cesta. Encarapitada no alto da \u00e1rvore, trabalha. \u00c0 sua volta, a mata ciliar que ladeia o rio e a ro\u00e7a de milho, arroz, banana, melancia, mandioca [&#8230;], onde h\u00e1 pouco trabalha\u00advam seus pais. Agora, que eles descansam, depois de uma breve refei\u00e7\u00e3o, ela tamb\u00e9m o faz. Cantando e conversando com os que est\u00e3o na esteira sob as \u00e1rvores, ela tece peque\u00adnos fios de fina fibra vegetal, que aos poucos tomam forma. Sua cesta, seus trabalho, seu brinquedo, sua brincadeira, seu aprendizado. Tudo isso numa c\u00e1psula de tempo e de a\u00e7\u00e3o, por delibera\u00e7\u00e3o e ritmo pr\u00f3prios: brincar-experimentar\u00ad-trabalhar-descobrir-aprender, numa s\u00f3 exist\u00eancia, num s\u00f3 momento (Aldeia Xavante \u2018RituWar\u00e9, Terra Ind\u00edgena Para\u00adbubure, 1977).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As meninas e o arroz: dois corpos e um pil\u00e3o. As m\u00e3os do pil\u00e3o se alternam, esfarinhando os gr\u00e3os de arroz trazidos da ro\u00e7a nas grandes cestas penduradas \u00e0 testa da m\u00e3e, das tias e av\u00f3s; as m\u00e3os das meninas subindo e descendo, ritima\u00addamente. O jogo dos pequenos corpos para traz, em busca do impulso, e para a frente no desfechar preciso do golpe. O alimento, o trabalho, a precis\u00e3o dos gestos, a produ\u00e7\u00e3o, a aprendizagem (Aldeia Naminkur\u00e1, 1977; a mesma cena em 1974, Aldeia Para\u00edso e, em 1994, na Aldeia Estrela) (SILVA, 2002, p. 47)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A antropologia da crian\u00e7a ind\u00edgena apoia-se, portanto, na interpreta\u00e7\u00e3o do labor como verdadeira brincadeira ou aprendizado, parte da experi\u00eancia cultural que os povos ind\u00edgenas proporcionam \u00e0s suas crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, a defini\u00e7\u00e3o de trabalho infantil no bojo das comunidades ind\u00edgenas deve ser constru\u00edda atrav\u00e9s de extenso di\u00e1logo entre a doutrina da prote\u00e7\u00e3o integral da crian\u00e7a e seu reconhecimento como pessoa em desenvolvimento e o processo de aprendizagem cultural das crian\u00e7as ind\u00edgenas. At\u00e9 mesmo o conceito do que \u00e9 ser crian\u00e7a deve ser repensado, n\u00e3o se podendo tomar como base unicamente o art. 2\u00ba do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, que define a crian\u00e7a como a pessoa de at\u00e9 doze anos de idade incompletos. Destaca Clarice Cohn que <em>\u201c<\/em>n\u00e3o podemos falar de crian\u00e7as de um povo ind\u00edgena sem entender como esse povo pensa o que \u00e9 ser crian\u00e7a e sem entender o lugar que elas ocupam naquela sociedade -, e o mesmo vale para as crian\u00e7as nas escolas de uma metr\u00f3pole\u201d (COHN, 2005, p. 9).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cristian Silva aborda o tema de forma pontual fazendo justamente a interlocu\u00e7\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a segundo crit\u00e9rios et\u00e1rios, para o homem branco, com a concep\u00e7\u00e3o indigenista, calcada nos costumes e tradi\u00e7\u00f5es de cada comunidade, sen\u00e3o vejamos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O aspecto a ser ressaltado \u00e9 que a partir das cosmologias de ind\u00edgenas de diferentes etnias \u201ccrian\u00e7as\u201de \u201cadolescentes\u201dcostumam ser percebidos como sujeitos com corpos em transforma\u00e7\u00e3o, como todas as demais pessoas e corpos. Portanto, suas opini\u00f5es e perspectivas pr\u00f3prias sobre o mundo deveriam ser tomadas como as de todos os demais seres,consideradas suas ontologias. Em suma, s\u00e3o seres que fazem e transformam o mundo, como todo mundo. S\u00e3o sujeitos aut\u00f4nomos em corpos distintos, mas que desde seu ponto de vista participam, interv\u00e9m e modificam substantivamente as culturas das quais fazem parte.Para diversas culturas ind\u00edgenas n\u00e3o h\u00e1 porque destacar estes sujeitos em detrimento dos outros e as quest\u00f5es problematizadas por esses povos voltam-se \u00e0 dimens\u00e3o social, que, por conseguinte, precisa ser objeto de investiga\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica, ainda que voltada \u00e0 especificidade de um segmento. (SILVA, 2016)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 esta perspectiva cultural e antropol\u00f3gica que deve orientar a interpreta\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o da norma proibitiva contida no art. 7\u00ba, inc. XXXIII aos membros das comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong><\/strong><strong>A concess\u00e3o do sal\u00e1rio-maternidade \u00e0s adolescentes ind\u00edgenas como instrumento de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade cultural<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Estado Social de Direito, criado e consagrado para fins de implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, promovendo a prote\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias e diversidade cultural, tem por principal objetivo a promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de redistribui\u00e7\u00e3o de renda, possibilitando a equipara\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social de seus membros em situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, a\u00ed inclu\u00eddas as comunidades ind\u00edgenas que, conquanto se desenvolvam com base em uma economia caracterizada pela subsist\u00eancia e coopera\u00e7\u00e3o entre os membros do grupo, muitas das vezes vivem de forma prec\u00e1ria, haja vista a condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de explora\u00e7\u00e3o desses povos. A atua\u00e7\u00e3o positiva e prestacional do Estado, nesse caso, revela-se indispens\u00e1vel na medida em que podem ser minimizadas as desigualdades experimentadas pelos povos tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre o rol de pol\u00edticas p\u00fablicas que deve ser implementado pelo Poder Executivo, tem-se a seguridade social, que abarca a previd\u00eancia social, com vistas a proteger o cidad\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es que impe\u00e7am ou dificultem o seu sustento, ainda que de forma tempor\u00e1ria. Neste sentido o art. 201 da CF\/88, <em>in verbis:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Art. 201. A previd\u00eancia social ser\u00e1 organizada sob a forma do Regime Geral de Previd\u00eancia Social, de car\u00e1ter contributivo e de filia\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, observados crit\u00e9rios que preservem o equil\u00edbrio financeiro e atuarial, e atender\u00e1, na forma da lei, a:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">I &#8211; cobertura dos eventos de incapacidade tempor\u00e1ria ou permanente para o trabalho e idade avan\u00e7ada;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">II &#8211; prote\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, especialmente \u00e0 gestante;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">III &#8211; prote\u00e7\u00e3o ao trabalhador em situa\u00e7\u00e3o de desemprego involunt\u00e1rio;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IV &#8211; sal\u00e1rio-fam\u00edlia e aux\u00edlio-reclus\u00e3o para os dependentes dos segurados de baixa renda;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">V &#8211; pens\u00e3o por morte do segurado, homem ou mulher, ao c\u00f4njuge ou companheiro e dependentes, observado o disposto no \u00a7 2\u00ba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso especificamente da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 gestante, assegurada por meio da previd\u00eancia social, a lei 8.213\/91 prev\u00ea expressamente a concess\u00e3o do benef\u00edcio previdenci\u00e1rio denominado sal\u00e1rio-maternidade, pago ao longo de 120 dias, cujo termo inicial pode se d\u00e1 at\u00e9 28 dias antes da data do parto (art. 71). Nos termos da referida lei, h\u00e1 um per\u00edodo de car\u00eancia prolongado quanto ao tempo de trabalho e contribui\u00e7\u00e3o para o recebimento do benef\u00edcio. Contudo, no que toca \u00e0s seguradas especiais, isto \u00e9, aquelas gestantes que desempenham atividades em regime de economia familiar, flexiona-se o per\u00edodo de car\u00eancia, exigindo-se apenas o exerc\u00edcio da atividade rural nos \u00faltimos 10 meses imediatamente anteriores \u00e0 data do parto ou do requerimento do benef\u00edcio, ainda que o labor tenha se dado de forma descont\u00ednuo (art. 93, \u00a72\u00ba, do Decreto n.\u00ba 3.048\/99).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda, exige-se para a concess\u00e3o do benef\u00edcio a conforma\u00e7\u00e3o da atividade laborativa com os preceitos contidos no art. 7\u00ba, inc. XXXIII, que pro\u00edbe o trabalho noturno ou em condi\u00e7\u00f5es penosas, perigosas ou insalubres para os menores de 18 anos e de qualquer trabalho para os menores de 16, salvo na condi\u00e7\u00e3o de aprendiz, a partir dos 14 anos, nos termos do art. 9\u00ba, inc. VII, al\u00ednea \u201cc\u201d, do Decreto n.\u00ba 3.048\/99, <em>in verbis:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Art.&nbsp;9\u00ba S\u00e3o segurados obrigat\u00f3rios da previd\u00eancia social as seguintes pessoas f\u00edsicas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VII&nbsp;&#8211;&nbsp;como segurado especial: a pessoa f\u00edsica residente no im\u00f3vel rural ou em aglomerado urbano ou rural pr\u00f3ximo que, individualmente ou em regime de economia familiar, ainda que com o aux\u00edlio eventual de terceiros, na condi\u00e7\u00e3o de:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">a)&nbsp;produtor, seja ele propriet\u00e1rio, usufrutu\u00e1rio, possuidor, assentado, parceiro ou meeiro outorgados, comodat\u00e1rio ou arrendat\u00e1rio rurais, que explore atividade:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1.&nbsp;agropecu\u00e1ria em \u00e1rea cont\u00ednua ou n\u00e3o de at\u00e9 quatro m\u00f3dulos fiscais; ou<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2.&nbsp;de seringueiro ou extrativista vegetal na coleta e extra\u00e7\u00e3o, de modo sustent\u00e1vel, de recursos naturais renov\u00e1veis, e fa\u00e7a dessas atividades o principal meio de vida;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;b)&nbsp;pescador artesanal ou a este assemelhado, que fa\u00e7a da pesca profiss\u00e3o habitual ou principal meio de vida; e<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;c) c\u00f4njuge ou companheiro, bem como <strong>filho maior de dezesseis anos de idade ou a este equiparado<\/strong>, do segurado de que tratam as al\u00edneas \u201ca\u201d e \u201cb\u201d deste inciso, que, comprovadamente, tenham participa\u00e7\u00e3o ativa nas atividades rurais ou pesqueiras artesanais, respectivamente, do grupo familiar.&nbsp;(grifo nosso)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da norma acima transcrita, tem-se que a mulher, ainda que na condi\u00e7\u00e3o de segurada especial, para fazer jus \u00e0 concess\u00e3o do sal\u00e1rio-maternidade por ocasi\u00e3o do nascimento de seu filho, deveria contar com a idade m\u00ednima de 16 anos. Abaixo dessa faixa et\u00e1ria, as parturientes ficariam exclu\u00eddas da prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o suscitou fortes debates acad\u00eamicos e sociol\u00f3gicos, especialmente no que toca \u00e0s mulheres pertencentes a grupos ind\u00edgenas que, como elemento de sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o cultural, auxiliam os demais membros da comunidade nas atividades de subsist\u00eancia desde muito cedo. Ademais, o indeferimento do benef\u00edcio a tal grupo de mulheres configuraria na pr\u00e1tica viola\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas e do pr\u00f3prio art. 231 da CF\/88, que reconhece a esses grupos o respeito aos seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste lume, o Poder Judici\u00e1rio, instado a se manifestar, passou a entender que uma interpreta\u00e7\u00e3o literal do art. 7\u00ba, inc. XXXIII da CF\/88, sem as necess\u00e1rias adequa\u00e7\u00f5es a grupos espec\u00edficos da sociedade, acabava por gerar, tamb\u00e9m, viola\u00e7\u00e3o ao Texto Constitucional, limando da prote\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais adolescentes ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, \u00e1rea de nosso territ\u00f3rio em que h\u00e1 a maior concentra\u00e7\u00e3o de grupos \u00e9tnicos ind\u00edgenas, a situa\u00e7\u00e3o tornou-se latente, demandando uma resposta imediata tanto do Minist\u00e9rio P\u00fablico quanto do Poder Judici\u00e1rio no sentido de conferir a plena efetividade dos direitos constitucionais, obedecidas as peculiaridades culturais de grupos minorit\u00e1rios da sociedade, fen\u00f4meno este tamb\u00e9m conhecido como \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o multiculturalista\u201d da Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste enfoque, a 1\u00aa Turma do TRF da 1\u00aa Regi\u00e3o, por maioria, reconheceu a condi\u00e7\u00e3o de segurada especial \u00e0 ind\u00edgena menor de 16 anos. Na decis\u00e3o, o autor do voto vencedor, desembargador federal Carlos Augusto Pires Brand\u00e3o, ressaltou que na comunidade ind\u00edgena a que pertencia a autora, a vida sexual se iniciava normalmente ap\u00f3s a primeira menarca, independente da idade em que isso ocorresse, e que, em raz\u00e3o das peculiaridades socioculturais do grupo, essas jovens j\u00e1 desenvolviam atividade agr\u00edcola em regime de economia familiar. Salientou ainda o relator, em seu voto, que:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(&#8230;) nos termos da jurisprud\u00eancia deste TRF da 1\u00aa Regi\u00e3o e do STJ \u00e9 poss\u00edvel reconhecer o direito ao benef\u00edcio previdenci\u00e1rio \u00e0 m\u00e3e ind\u00edgena menor de 16 anos, uma vez que a veda\u00e7\u00e3o constitucional ao trabalho ao menor de 16 anos, constante do art. 7\u00ba, XXXIII da CF\/88 \u00e9 norma de garantia do trabalhador, que visa a prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, n\u00e3o podendo ser interpretada em seu desfavor, quando efetivamente comprovada a atividade rural. (Processo n\u00ba 000421141.2011.4.0.1.4200\/RR)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Partindo da premissa de que a norma constitucional que pro\u00edbe o trabalho a pessoas menores de 16 anos tem a mesma hierarquia constitucional daquela que prev\u00ea o reconhecimento da cultura e da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos tradicionais, n\u00e3o devendo haver a sobreposi\u00e7\u00e3o de uma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outra, mas sim a pondera\u00e7\u00e3o de valores no caso concreto, a jurisprud\u00eancia nacional consolidou-se no sentido de que o limite et\u00e1rio ao trabalho n\u00e3o pode, jamais, ser usado em desfavor da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade ou a inf\u00e2ncia, mas sempre em favor dessas. Neste lume, transcreve-se recente julgado da Primeira Se\u00e7\u00e3o do TRF1:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PROCESSUAL CIVIL E PREVIDENCI\u00c1RIO. SAL\u00c1RIO-MATERNIDADE. TRABALHADORA RURAL. IN\u00cdCIO DE PROVA MATERIAL. PROVA TESTEMUNHAL COMPLEMENTAR.<\/strong> <strong>DEFERIMENTO DO BENEF\u00cdCIO. CONCESS\u00c3O DO BENEF\u00cdCIO A MENOR DE 16 ANOS DE IDADE. ORGANIZA\u00c7\u00c3O SOCIAL, COSTUMES, L\u00cdNGUAS, CREN\u00c7AS E TRADI\u00c7\u00d5ES IND\u00cdGENAS. POSSIBILIDADE <\/strong>CORRE\u00c7\u00c3O MONET\u00c1RIA. JUROS DE MORA. PROCED\u00caNCIA DO PEDIDO. HONOR\u00c1RIOS RECURSAIS. ART. 85, \u00a7 11, DO CPC\/2015.1. O sal\u00e1rio-maternidade \u00e9 devido \u00e0 segurada da Previd\u00eancia Social, durante 120 (cento e vinte) dias, com in\u00edcio no per\u00edodo entre 28 (vinte e oito) dias antes do parto e a data de ocorr\u00eancia deste, observadas as situa\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es previstas na legisla\u00e7\u00e3o no que concerne \u00e0 prote\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, conforme estabelecido pelo art. 71 da Lei 8.213\/91. 2. O reconhecimento da qualidade de segurada especial apta a receber o espec\u00edfico benef\u00edcio tratado nos autos desafia o preenchimento dos seguintes requisitos: a exist\u00eancia de in\u00edcio de prova material da atividade rural exercida, a corrobora\u00e7\u00e3o dessa prova indici\u00e1ria por robusta prova testemunhal e, finalmente, para obten\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio-maternidade ora questionado, a comprova\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio de atividade rural, ainda que de forma descont\u00ednua, no per\u00edodo anterior ao in\u00edcio do benef\u00edcio. (AC 1001990-87.2018.4.01.9999, DESEMBARGADOR FEDERAL JAMIL ROSA DE JESUS OLIVEIRA, TRF1 &#8211; PRIMEIRA TURMA, PJe 21\/09\/2020 PAG.) 3. A avalia\u00e7\u00e3o do contexto probat\u00f3rio da atividade rural, para fins de percep\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio-maternidade, deve se dar de modo mais favor\u00e1vel \u00e0 segurada especial, porque exigir que esse in\u00edcio de prova material se refira ao curto per\u00edodo de car\u00eancia, de 10 (dez) meses anteriores ao in\u00edcio do benef\u00edcio (nos termos do \u00a7 2\u00ba do art. 93 do Decreto 3.048\/99), seria o mesmo que exigir cont\u00ednuo registro documental do trabalho rural, o que n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel, em face da presun\u00e7\u00e3o de continuidade do labor rural. 4. O exerc\u00edcio de atividade rural pela parte autora para a concess\u00e3o do benef\u00edcio est\u00e1 suficientemente provado, seja pelo in\u00edcio de prova material, consistente nos documentos acostados: certid\u00e3o de nascimento da autora, certid\u00e3o de nascimento ind\u00edgena do filho da autora, nascido em 08\/04\/2018; Certid\u00e3o de Exerc\u00edcio fornecido pela FUNAI ID. 34494069, atestando o trabalho rural exercido pela autora no per\u00edodo compreendido entre 17\/11\/2015 a 07\/04\/2018, bem como documento emitido pelo pr\u00f3prio INSS confirmando o per\u00edodo de 6 meses de car\u00eancia exercido em atividade rural pela autora, seja pela prova testemunhal, referida na senten\u00e7a, confirmando a atividade rural sob o regime de economia familiar. 5. <strong>Nos termos da jurisprud\u00eancia deste TRF da 1\u00aa Regi\u00e3o e do STJ \u00e9 poss\u00edvel reconhecer o direito ao benef\u00edcio previdenci\u00e1rio \u00e0 m\u00e3e ind\u00edgena menor de 16 anos, uma vez que a veda\u00e7\u00e3o constitucional ao trabalho ao menor de 16 anos, constante do art. 7\u00ba, XXXIII da CF\/88 \u00e9 norma de garantia do trabalhador, que visa a prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, n\u00e3o podendo ser interpretada em seu desfavor, quando efetivamente comprovada a atividade rural<\/strong> 6. Corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e juros morat\u00f3rios conforme Manual de C\u00e1lculos da Justi\u00e7a Federal. 7. A senten\u00e7a foi publicada na vig\u00eancia do atual CPC (a partir de 18\/03\/2016, inclusive), devendo-se aplicar o disposto no art. 85, \u00a7 11, arbitrando-se honor\u00e1rios advocat\u00edcios recursais. 8. Apela\u00e7\u00e3o provida, para reformar a senten\u00e7a e julgar procedente o pedido, determinando o pagamento do benef\u00edcio de sal\u00e1rio-maternidade, equivalente a quatro presta\u00e7\u00f5es do sal\u00e1rio m\u00ednimo vigente \u00e0 \u00e9poca do parto. (TRF-1 &#8211; AC: 10284460620204019999, Relator: JUIZ FEDERAL RODRIGO DE GODOY MENDES (CONV.), Data de Julgamento: 16\/08\/2021, PRIMEIRA SE\u00c7\u00c3O, Data de Publica\u00e7\u00e3o: PJe 16\/08\/2021 PAG PJe 16\/08\/2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Superior Tribunal de Justi\u00e7a, por sua vez, acatou o entendimento adotado nos \u00e2mbitos dos Tribunais Federais, isto \u00e9, de flexibiliza\u00e7\u00e3o da norma contida no art. 7\u00ba, inc. XVIII, da CF\/88, a qual deve ser interpretada, sempre, em favor da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia, lendo-se em conta as particularidades culturais de cada grupo social:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Superior Tribunal de Justi\u00e7a, desde h\u00e1 muito, tem se posicionado no sentido de que a veda\u00e7\u00e3o legal do trabalho infantil tem por escopo proteger o menor e, portanto, n\u00e3o pode ser utilizada em preju\u00edzo daquele que foi obrigado, dadas as circunst\u00e2ncias, a exercer o trabalho em idade inferior ao limite et\u00e1rio m\u00ednimo. (STJ &#8211; AgInt no REsp: 1679865 RS 2017\/0145732-1, Relator: Ministro GURGEL DE FARIA, Data de Julgamento: 30\/08\/2021, T1 &#8211; PRIMEIRA TURMA, Data de Publica\u00e7\u00e3o: DJe 08\/09\/2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com efeito, in\u00fameros foram os pedidos de concess\u00e3o do referido aux\u00edlio previdenci\u00e1rio que foram negados pelo INSS, administrativamente, com base no limite et\u00e1rio para o trabalho, entendimento este de cunho notadamente colonialista, cabendo ent\u00e3o ao Poder Judici\u00e1rio o papel de conferir a m\u00e1xima efetividade \u00e0 norma constitucional que protege a inf\u00e2ncia e o multiculturalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo antropol\u00f3gico para a solu\u00e7\u00e3o de demandas dessa natureza torna-se imperioso uma vez que, somente atrav\u00e9s de tal documento, o operador do direito ter\u00e1 a seu dispor elementos que caracterizam o trabalho desempenhado pelas gestantes como desdobramento cultural. Cita-se inclusive o caso emblem\u00e1tico das ind\u00edgenas Macuxi e Wapixana, do Estado de Roraima, em que o TRF-1, nos autos do Processo n\u00b0 0004211-41.2011.4.01.4200, reconheceu a condi\u00e7\u00e3o de segurada especial a uma ind\u00edgena menor de 16 anos, ressaltando que a per\u00edcia antropol\u00f3gica demonstrou o in\u00edcio do trabalho em regime de economia familiar para as meninas ind\u00edgenas j\u00e1 a partir dos 6 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, a par dos estudos antropol\u00f3gicos realizados nas comunidades ind\u00edgenas, n\u00e3o se pode equiparar o trabalho executado pelas crian\u00e7as ind\u00edgenas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra infantil vedada pelo constituinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exemplificativamente,<em> O livro de brincadeiras do povo Tikuna<\/em>, resultado de pesquisa desenvolvida por Rodrigues Pereira (2011), concentra a aten\u00e7\u00e3o na an\u00e1lise das pr\u00e1ticas culturais expressas nas brincadeiras infantis dos \u00edndios do povo <em>Tikuna<\/em>, que vivem no espa\u00e7o urbano de Manaus, na Comunidade <em>Watchimaucu<\/em>, no Bairro Cidade de Deus. A obra do referido autor revela que as crian\u00e7as de tal comunidade aprendem o of\u00edcio dos pais por meio de brincadeiras que desenvolvem desde cedo, sem perder o car\u00e1ter l\u00fadico da pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 dizia o pesquisador \u201c\u00edndio, j\u00e1, desde pequeno, brinca de trabalhar. Seu brinquedo \u00e9, conforme o sexo, o instrumento de trabalho do pai ou da m\u00e3e. O \u00edndio que brinca de trabalhar, depois vai trabalhar brincando\u201d (RODRIGUES PEREIRA, 2011, p. 15). Longe, portanto, de se revestir do car\u00e1ter predat\u00f3rio da explora\u00e7\u00e3o do trabalho infantil, o trabalho desempenhado pelas crian\u00e7as ind\u00edgenas, como parte integrante de seu processo de aprendizagem cultural, permite a elas sua plena inser\u00e7\u00e3o na comunidade e a perpetua\u00e7\u00e3o de sua cultura. E com base nessas premissas \u00e9 que a extens\u00e3o do aux\u00edlio maternidade a m\u00e3es ind\u00edgenas menores de 16 anos configura, na pr\u00e1tica, verdadeira materializa\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios constitucionais, na medida em que se respeitam as particularidades culturais de grupos minorit\u00e1rios, concretizando o princ\u00edpio da igualdade em sua mais justa forma, qual seja, a material.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda metade do s\u00e9culo XX, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, a reconstru\u00e7\u00e3o dos direitos humanos tornou-se uma necessidade imperativa, de modo que fossem protegidos n\u00e3o apenas os direitos fundamentais de primeira e segunda dimens\u00e3o, quais sejam, direitos liberais e sociais, respectivamente, mas tamb\u00e9m os direitos da coletividade, classificados como direitos difusos e de terceira dimens\u00e3o. Nesta \u00faltima categoria temos ent\u00e3o a prote\u00e7\u00e3o de grupos minorit\u00e1rios, especialmente no que toca \u00e0 diversidade cultural. Por sua vez, a Declara\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os Direitos dos Povos Ind\u00edgenas, de 2008, finalmente veio a normatizar o princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, que confere aos povos tradicionais a observ\u00e2ncia, por parte dos Poderes, de seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es no que concerne ao seu modo de viver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira de 1988, confeccionada no bojo de uma sociedade marcada pelo multiculturalismo, consagrou igualmente a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura e aos costumes ind\u00edgenas em seus artigos 201 e 2015. Assim, qualquer interpreta\u00e7\u00e3o conferida \u00e0s demais normas constitucionais que digam respeito aos povos ind\u00edgenas deve levar em considera\u00e7\u00e3o, sobretudo, os aspectos de forma\u00e7\u00e3o cultural daquela comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob esta perspectiva, no intuito de se conferir a m\u00e1xima efic\u00e1cia das normas constitucionais, a jurisprud\u00eancia nacional consolidou-se no sentido de conceder a extens\u00e3o do benef\u00edcio previdenci\u00e1rio do aux\u00edlio maternidade \u00e0s mulheres ind\u00edgenas menores de 16 anos, enquadrando-as na condi\u00e7\u00e3o de seguradas especiais, a despeito da norma contida no art. 7\u00ba, inc. XXXIII, da CF\/88, que pro\u00edbe qualquer esp\u00e9cie de trabalho aos menores de 16 anos, salvo na condi\u00e7\u00e3o de aprendiz, a partir dos 14 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estudos antropol\u00f3gicos revelam a todo tempo as particularidades culturais dos povos ind\u00edgenas, t\u00e3o diferentes das do homem ocidentalizado. Dentre tais particularidades inclui-se justamente o trabalho desempenhado pelas crian\u00e7as e adolescentes da comunidade como elemento integrante de seu processo de aprendizagem cultural e inser\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a na comunidade e n\u00e3o como explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra infantil. Logo, a aplica\u00e7\u00e3o literal, na pr\u00e1tica, do art. 7\u00ba, inc. XXXIII, da CF\/88 \u00e0s adolescentes ind\u00edgenas acaba por marginaliz\u00e1-las da prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria, uma vez que as impede de usufruir do benef\u00edcio previdenci\u00e1rio por ocasi\u00e3o do nascimento de seus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De modo a proteger os aspectos culturais deste povo, coube ao Poder Judici\u00e1rio realizar uma interpreta\u00e7\u00e3o do mencionado artigo em conformidade e harmonia com os demais valores constitucionais, igualmente relevantes, de modo que fosse reconhecido como leg\u00edtimo o trabalho desempenhado pelas adolescentes no seio das comunidades em que vivem, como manifesta\u00e7\u00e3o cultural, possibilitando a elas a integral prote\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, assegurada pela Previd\u00eancia Social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALEXY, Robert. <strong>Teoria dos direitos fundamentais<\/strong>; Tradu\u00e7\u00e3o de Virg\u00edlio Afonso da Silva. 5. ed. S\u00e3o Paulo: Malheiros, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALEXY, Robert. <strong>Princ\u00edpios Formais e outros aspectos da Teoria Discursiva do Direito.<\/strong> Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2014<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALMEIDA, Roger Luiz Paz. <strong>Acesso \u00e0 Justi\u00e7a na Amaz\u00f4nia: Desafios e perspectivas \u00e0 Luz do Neoconstitucionalismo.<\/strong> Curitiba: Juru\u00e1, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c1VILA, Humberto. <strong>Teoria dos Princ\u00edpios: da defini\u00e7\u00e3o \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios jur\u00eddicos. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Editora Malheiros, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALTMAN, Raquel Zumbano. Brincando na hist\u00f3ria. <em>In:<\/em> PRIORE; Mary Del. <strong>Hist\u00f3ria das crian\u00e7as no Brasil.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Contexto, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ARA\u00daJO, Ana Val\u00e9ria. <strong>Povos Ind\u00edgenas e a Lei dos \u201cBrancos\u201d: o direito \u00e0 diferen\u00e7a.<\/strong> Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BALDI, C\u00e9sar Augusto. As m\u00faltiplas faces do sofrimento humano: os direitos humanos em uma perspectiva multicultural. <em>In<\/em>: BALDI, C\u00e9sar Augusto. <strong>Direitos Humanos na Sociedade Cosmopolita<\/strong>. Rio de Janeiro: Renovar, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BANIWA, Gersem. Autonomia Ind\u00edgena no Brasil: desafios e possibilidades. In: DUPRAT, D\u00e9bora<strong>. Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT e os Estados Nacionais<\/strong>. Bras\u00edlia: ESMPU, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARRETO, Vicente Paulo. Multiculturalismo e direitos humanos: um conflito insol\u00favel? <em>In:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BALDI, C\u00e9sar Augusto. <strong>Direitos Humanos na sociedade cosmopolita<\/strong>. Rio de Janeiro: Renovar, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BONAVIDES, Paulo. <strong>Curso de Direito Constitucional<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Malheiros, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">COHN, Clarice<strong>. Antropologia da crian\u00e7a<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HESSE, Konrad. <strong>A For\u00e7a Normativa da Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong>. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1991.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. <strong>Antropologia estrutural<\/strong>. Rio de Janeiro:Tempo Brasileiro, 1967.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MELATTI, J\u00falio Cezar. 2011.Alto Amazonas<strong>. In: \u00c1re\u00adas etnogr\u00e1ficas da Am\u00e9rica Ind\u00edgena. <\/strong>P\u00e1gina eletr\u00f4nica elaborada por J\u00falio Cezar Melatti. P\u00e1gina eletr\u00f4nica elaborada por J\u00falio Cezar Melatti. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.juliomelatti.pro.br\/areas\/15altama.pdf&gt;. Acesso em: 10.12. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MOREIRA, Rafael Bueno da Rosa; CUST\u00d3DIO, Andr\u00e9 Viana. A influ\u00eancia do direito internacional no processo de erradica\u00e7\u00e3o do trabalho infantil. <strong>Revista direitos fundamentais &amp; democracia (UniBrasil),<\/strong> v. 23, p. 178, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NOGUEIRA, Caroline Barbosa Contente. <strong>A Autodetermina\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas Frente ao Estado<\/strong>. Tese de Doutorado pela PUCPR. Curitiba, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Assis da Costa. <strong>Ind\u00edgenas crian\u00e7as, crian\u00e7as ind\u00edgenas: perspectivas para uma constru\u00e7\u00e3o da doutrina da prote\u00e7\u00e3o plural<\/strong>. Cu\u00adritiba: Juru\u00e1, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RAMOS, Andr\u00e9 de Carvalho. <strong>Curso de Direitos Humanos<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Saraiva, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RODRIGUES PEREIRA, Jhones. <strong>O livro de brincadeiras do povo <em>Tiku\u00adna<\/em>. <\/strong>Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. 2011. 50 p. Vol. \u00danico. AMAZONAS (Esta\u00addo). Secretaria de Estado de Cultura. Ger\u00eancia de Acervos Digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVA, Helo\u00edsa Helena Corr\u00eaa da. Prote\u00e7\u00e3o social e quest\u00e3o social dos ind\u00edgenas urbanos emcidades transfronteiri\u00e7as do Alto Solim\u00f5es. In: HORBATH, Jorge E.; GRACIA, Mar\u00edaAmalia. <strong>La cuesti\u00f3n ind\u00edgena enlasciudades de las Am\u00e9ricas. <\/strong>ImprentaDorrego, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVA, Cristhian Te\u00f3filo da. <strong>Crian\u00e7as e adolescentes ind\u00edgenas em per\u00adspectiva antropol\u00f3gica: repensando conflitos \u00e9ticos interculturais. Revis\u00adta Bio\u00e9tica<\/strong>, [S.l.], v. 20, n. 1, mai. 2012. ISSN 1983-8034. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/revistabioetica.cfm.org.br&gt;. Acesso em: 10.12.2021<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Mestre em Constitucionalismo e Direitos na Amaz\u00f4nia pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas. Especialista em Processo Civil. Ju\u00edza do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 11\u00aa Regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Artigo 2\u00b0- 1. Os governos dever\u00e3o assumir a responsabilidade de desenvolver, com a participa\u00e7\u00e3o dos povos interessados, uma a\u00e7\u00e3o coordenada e sistem\u00e1tica com vistas a proteger os direitos desses povos e a garantir o respeito pela sua integridade. 2. Essa a\u00e7\u00e3o dever\u00e1 incluir medidas: a) que assegurem aos membros desses povos o gozo, em condi\u00e7\u00f5es de igualdade, dos direitos e oportunidades que a legisla\u00e7\u00e3o nacional outorga aos demais membros da popula\u00e7\u00e3o; b) que promovam a plena efetividade dos direitos sociais, econ\u00f4micos e culturais desses povos, respeitando a sua identidade social, cultural, os seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es, e as suas institui\u00e7\u00f5es;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Art. 7\u00ba, inc. XXXIII &#8211; proibi\u00e7\u00e3o de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condi\u00e7\u00e3o de aprendiz, a partir de quatorze anos;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Art. 3\u00ba da Declara\u00e7\u00e3o de Direitos das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Direito dos Povos Ind\u00edgenas: Os povos ind\u00edgenas t\u00eam direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o. Em virtude desse direito determinam livremente sua condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e buscam livremente seu desenvolvimento econ\u00f4mico, social e cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> &nbsp;<a><\/a>Art. 2\u00ba Considera-se crian\u00e7a, para os efeitos desta Lei, a pessoa at\u00e9 doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The Concession of Maternity Assistance to Indigenous Women under 16 years as an instrument to implement the Principle of Self-Determination of Traditional People Stella Litaiff Isper Abrahim C\u00e2ndido[1] Resumo: A&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_lmt_disableupdate":"","_lmt_disable":"","footnotes":""},"categories":[33],"tags":[130,184,361,418,421,498,546],"class_list":["post-2878","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-auxilio-maternidade","tag-crianca-indigena","tag-multiculturalismo","tag-povos-indigenas","tag-principio-da-autodeterminacao","tag-stf","tag-trabalho-infantil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2878"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2878\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/heyo.com.br\/clientes\/fontetrabalhista\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}